Almodovar e a indelicadeza

Foi um sábado bem atípico. Eu fui assistir a A Pele em que Habito, do Almodóvar, e sai do cinema pensando que eu tinha visto um filme do Von Trier. Tá, a comparação é tosca, eu sei. Nem é muito verdadeira, pra ser sincera, mas o fato é que eu sai do cinema com aquele feeling de desespero que os filmes do Von Trier costumam me dar (AKA domingo a noite depois de ver Melancolia), achando que a humanidade é uma porcaria, que todo mundo é louco e que o melhor é se jogar do precipício. E tudo piorou porque eu assisti ao filme num Cinemark.

Isso vai parecer coisa de gente cult e besta, mas eu digo com sinceridade: a menos que você esteja psicologicamente preparado, é melhor não ver cinema arte em salas de cinema de shoppings. Tem exceção, claro – em São Paulo, seria o caso do Frei Caneca. Mas enfim, eu compararia a experiência a ir a uma sessão de O Senhor dos Anéis às 15 horas de uma quarta-feira. Você está fadado a ver ao filme com crianças/adolescentes do seu lado, que não estão ali pra prestar atenção na história, mas sim pra “ficar”, comer pipoca ou conversar. Ver cinema arte num shopping no sábado às 19h30 é quase a mesma coisa: as pessoas, em sua maioria, não estão muito preocupadas em prestar atenção, elas querem mais é se divertir. Nada de errado com isso, o problema é que o filme não é “só pra se divertir”, bem pelo contrário, ele é bem angustiante.

O que me deixou mesmo com uma sensação de que talvez esses filmes desesperadores não estejam tão longe da verdade foi uma cena que aconteceu na própria sala de cinema. Quando as luzes já estavam apagadas, um casal (que com certeza já tinha seus 70 anos, ou estava bem perto disso) subiu as escadas procurando seu lugar, já que agora o Cinemark tem poltronas numeradas. Imaginem a situação: escuro, um papel pequeno, dois senhores. O resultado: obviamente eles estavam com algumas dificuldades pra encontrar as cadeiras. Quando finalmente chegaram nos seus lugares, viram que já tinham outras pessoas sentadas nas poltronas. Eles ficaram um pouco sem graça e perguntaram para as moças que estavam sentadas se aqueles eram mesmo os lugares delas. Elas responderam que sim, mostraram os ingressos e eles, confusos, desceram as escadas de novo. Foram falar com um lanterninha e voltaram para conversar com as moças. O moço foi verificar a numeração nos ingressos e, enquanto isso, o senhor vira pra moça que está sentada e fala “mas eu acho que esse lugar é meu porque é esse o número que está escrito no meu ingresso”. A delicadeza da mulher berra “seu idiota, olha aqui o meu ingresso, o lugar é meu!”. Claramente, todo mundo parou de prestar atenção na tela e passou a se concentrar na discussão.

Não consegui entender muito bem qual tinha sido o problema, mas aparentemente foi um erro do sistema: tanto o casal quanto as moças tinham comprado entradas para as mesmas poltronas. No final das contas, o senhor desceu novamente as escadas, pegou no braço da sua mulher e foi sentar a meio metro da tela, naquele lugar em que você tem que mexer o pescoço pra conseguir ler as falas. As moças ficaram lá nas poltronas. E estavam no seu direito, em teoria, afinal elas compraram os ingressos e chegaram antes, então que se ferrem os velhinhos. Pode ser que sim, mas não pude deixar de ficar incomodada com aquilo o resto da noite. Vendo os absurdos que acontecem no filme (não vou entrar em detalhes pra não estragar a surpresa), não pude deixar de me perguntar se aquilo tudo, apesar de claramente exagerado, não tem lá o seu quê de verdade. É claro que eu sei que sim, afinal, se não tivesse, provavelmente o Almodóvar não gastaria seu tempo contando a história. Mas ver ver aqueles dois senhores sentados no cantinho da sala, se esforçando pra ver o filme, só piorou a situação. Acho que o egoísmo é maior do que eu imaginava…

This entry was published on November 6, 2011 at 8:16 pm. It’s filed under Movies and tagged , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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